Aos amigos, aos amores, aos afetos...






E eu relembro o passado,

Exercito o presente e

Fabrico o futuro.

No meu sorriso discrepante,

Em minha alegria vibrante,

Minha existência que grita dentro de mim

Querendo correr, se jogar no chão, saltar, pular...

Comer brigadeiro na panela,

Rir e gargalhar com os amigos,

Ter certezas e incertezas,

Ter histórias pra contar.

Não importa quantas vezes o coração foi partido,

Ele sempre se regenera.

Não importa quantas perdas,

Sempre há alguma vitória para se orgulhar.

E não importa quantas lágrimas há de cruzar a face,

Porque são os sorrisos que prevalecem.

E arriscar... arriscar nos movimentos, sentimentos,

Ações e palavras...

Arriscar com o corpo, com a alma,

Se jogar num oceano de incertezas,

Porque o incerto que nos leva às descobertas,

E são delas que tiramos nossa sabedoria.

Sem medo, pois o medo nos torna fracos,

O medo nos impede de beijar nossos sonhos,

De nos levarmos para longe por medo de não encontrar o caminho de volta.

E se não for necessário voltar?

E ninguém é capaz de fazê-lo feliz,

Ninguém é capaz de dar lhe força,

Isso apenas você pode presentear a si mesmo.

Os amigos, os amores, a família, são apenas coadjuvantes,

Na sua bela estrada de felicidade.

Erguer-se, e soltar-se,

Correr e saltar,

Se jogar em queda livre, ou no chão,

São apenas técnicas que cedo ou tarde,

Estarão amaciados, amassados e decorados

Nessa existência,

Como em passe de mágica.

Nós sentados num jardim de uma casa de campo

Tomando um chá, observando a chuva beijar o solo,

Relembrando quando nossos sonhos pareciam impossíveis.

Prima-dona Primavera




As flores derramam seu perfume intrínseco em minha memória,

Lembranças da infância, do asfalto úmido e das sapatilhas arrastando na calçada.

A memória codificada da brisa alerta ao entardecer,

E meus passos largos amaciavam os pés ao chão.

E a primavera abrindo um sorriso largo,

Na minha infinda magnitude do pesar.

As pernas debruçadas na solidão exaustiva,

Declamando a chegada das flores...

Meus braços agarram sua presença,

Levando ao peito a maciez e delicadeza

De uma Primavera desenhada em guache ou fotolito,

Aspirando a incerteza corriqueira,

Num poema, num cinema, na coxia do Teatro,

Nas paredes, nas escadas, poltronas, camarins,

Nos asilos, nas montanhas, no teu beijo ou afago,

Nos jardins de Ferro e vidro das cidades,

Nas luzes à noite, nos becos e em belas canções,

Deslizando nos vestígios de papel, qualquer rabisco...

Delírio de Cotard


Estou morta. Seca por dentro e por fora.

Nos meus pulsos não vibram nada na extensão do meu ser.

Meus olhos são enormes vácuos, vazios...

Eu não sou ninguém. Caminho morta.

Alimentando minha sede convulsiva,

Vagando sem batimentos, sem sangue, sem nada.

Eu sou um corpo vazio que foge para continuar existindo,

Uma ventania silenciosa no meu intestino, que já não há,

Que apodreceu em meu nome todas as esperanças,

Eu não estou falando com meu corpo, aqui quem fala é uma alma,

Enferma, putrefata, em sua essência absoluta e moribunda.

Amor Pirata



Em algum porto, não muito seguro, um coração de pirata ancora em meus braços,
no desleixo das ondas, na dúvida das rotas e na insensatez de palavras soltas.

Em algum porto, não muito seguro, diz que me ama em palavras bêbadas e me beija com hálito de rum.

Em algum porto, em alguma verdade, sentada sob o horizonte, meus olhos se desmancham na imensidão do oceano à beira da praia.

As matizes de azul se confundem, em algum porto, não muito distante e atraca o navio dos meus sonhos, trilhando minha saudade, balbuciando minha dor.

Nos seus cabelos ondulam as batidas do meu coração, em seu pranto estão minhas lágrimas
em seu sono está meu sossego.

E apenas desejo que esteja, que fique enquanto puder, que retorne quando a mim desejar em teu colo, sem pensar em amanhãs...

E cada um desses dias e cada uma dessas noites, únicas e eternas, jamais se repetirão.
E cada toque, cada sussurro, apenas um.
Em silêncio ou em palavras...
Nos braços incertos, um porto, nada seguro...

Entre desejos e realidade
Aventurando-se por sete mares,
Há de explanar no horizonte uma bandeira negra.

Se não forem devorados por sereias e outras feras marinhas, há de ancorar em meus braços o coração de um pirata.

Dançando sozinho




E eu dancei sozinha,

Com hifens na língua

Colando cada pedaço que rasguei um dia.

Encontrei na sua ausência minha inspiração

E joguei minha tristeza do 20 andar do meu coração.

Sem pulso, sem palavras, uma canção instrumental

Conduzindo minha calma

Você aos poucos se torna um vulto,

Mas eu não queria, eu poderia te amar,

Poderíamos ser completos.

O céu multicolorido gritava no horizonte,

Chamava meu nome...

Pinceladas de estrelas refletiam no chão

Vários pincéis, várias telas,

Fotografias, palcos, cinema.

Dançando sozinha,

Bebendo um vinho, fumando um cigarro,

Lendo um poema, sorrindo o escárnio.

A outra página está em branco,

Podemos reescrevê-la, ou deixa-la manchar no tempo,

Irremediável...

Tempo




À margem de um rio sem lembranças
sinto a melancolia agridoce do passado.
Me sinto a estupidez em saltos,
Em branda euforia.
Jamais serei como eles...
Quem são eles? - Não sei.

Alguém apagada pelo desgaste do tempo
Um sonho profundo na minha personalidade.
Jamais fui vista, jamais ouvida...
Eu nem sei porque o tempo me arrasta em sua grama.

Quanto mais necessito esperar por baixo dessas roupas?
Minha consciência sangra de vergonha
Mas eu não estou infeliz, acomodada talvez... ou não.
Acabo de descobri que faço o possível
Sempre me afrouxou enfrentar o impossível!

Sinto os passos do tempo chacoalhar minha memória
Posso abrir a porta, ou esperar sentada.


Minha esperança se eleva,
no céu escurecido pincelado de estrelas,
em companhia da sua respiração.
Eu posso sentir sua dor,
derramar suas lágrimas,
mas elevo balões de ar
para aliviar o sofrimento,
deglutindo a tristeza vorazmente,
Acariciando sua dor,
massageando seus gritos,
eu gostaria de te ver como antes,
mas pode.ser que o antes seja apenas memória,
dor crônica.